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Luta contra erradicação de doenças abre frentes
Estadão
23
/08/2010

Há 30 anos a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou a erradicação da varíola. Foi a primeira vitória total - e, por enquanto, a única - obtida sobre uma doença. Segundo especialistas, as próximas enfermidades a desaparecer serão a poliomielite, o sarampo e a rubéola.

Por pelo menos 3 mil anos a varíola dizimou a espécie humana. As marcas no rosto e no tronco da múmia do faraó Ramsés V testemunham a antiguidade da doença, que causou outras vítimas famosas, como o rei Luís XV da França, Beethoven e Stalin (os dois últimos sobreviveram).

Até a década de 60, havia cerca de 50 milhões de novos casos, todos os anos. A mortalidade chegava a 25%. A maioria dos sobreviventes permaneceu com cicatrizes deixadas pelas pústulas.

Em 1796, o médico britânico Edward Jenner descobriu a vacina, feita com o pus das feridas de vacas infectadas com uma variante bovina da varíola. O vírus das vacas, inoculado nas pessoas, produzia resposta imunológica contra a varíola humana.

Em 1967, a OMS lançou um programa para erradicar a doença. Cerca de 60% da população mundial vivia em áreas com circulação do vírus. Dez anos depois, foi registrado o último caso de contágio natural, na Somália. Em 1978, a varíola causaria a última morte, em um laboratório inglês que manipulava o vírus.

"O sucesso do programa mostrou que é possível erradicar algumas doenças", aponta o médico gaúcho Ciro de Quadros, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas nos EUA. Ele coordenou os esforços para eliminar a varíola na Etiópia. Sem infraestrutura e dilacerado por conflitos regionais, o país representava um grande desafio para o programa de erradicação da OMS.

O feito mundial serviu para organizar estruturas nacionais de vigilância e vacinação, muito úteis nas décadas seguintes. No Brasil, "é impossível imaginar o Programa Nacional de Imunização e o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária sem a experiência da erradicação da varíola", aponta Gilberto Hochman, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz (COC-Fiocruz).

Próximos desafios. "Para vacinar contra a pólio, basta saber contar até dois", afirma Eliane Veiga da Costa, fazendo referência à facilidade para ministrar a imunização contra a doença: duas gotinhas da vacina Sabin. A América eliminou a poliomielite em 1994. Agora, a maior dificuldade está na África e na Ásia.

No fim de julho, técnicos se reuniram em Washington para avaliar se seria possível erradicar o sarampo. "Nem todas as doenças podem ser erradicadas", explica Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz). "Além da disponibilidade de uma vacina, é necessário que não existam reservatórios do microrganismo." Para eliminar a gripe, por exemplo, seria necessário imunizar as aves que carregam o vírus, uma tarefa inviável.

Mas os técnicos de Washington consideraram possível a erradicação do sarampo, afirma Carlos Castillo-Solorzano, assessor regional de imunização da Organização Pan-Americana de Saúde. Quadros, que participou da reunião, afirma que uma meta foi sugerida: acabar com a doença até 2020. A proposta deve ser discutida na próxima assembleia-geral da OMS, em janeiro.

Eliminado no Brasil em 2000, o sarampo ainda mata 450 crianças todos os dias, principalmente na África. No País, o governo afirma que os casos da doença na última década foram todos importados.

A terceira doença que entrará na mira para a erradicação será a rubéola. Aparentemente benigna, pode provocar má-formação em fetos nos três primeiros meses da gestação - a síndrome da rubéola congênita (SRC).

Há um ano, o Brasil registrou o último caso de SRC. A maioria dos países na África e na Ásia Meridional ainda não adota a imunização contra a rubéola.

 

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