| |
Foi-nos solicitado pelo Coren-PR um relato histórico,
implicitado à nossa participação e testemunho,
acreditando nossas solicitantes que eu pelo fato de termos
presenciado e participado de acontecimentos, possamos expô-los
com fidelidade. Missão difícil, mas é
o que pretendemos fazer procurando contar de nossa participação,
como contributo de evolução e progresso na história
da enfermagem paranaense. Trata-se de um desafio à
nossa memória a lembrança de fatos vividos e
compartilhados, acontecimentos presenciados e que devem ser
evocados a fim de que a geração atual de enfermeiros
conhecendo um pouco do ontem, possa entender melhor o hoje
e construir o amanhã, pois como em todas as profissões,
a história da enfermagem deve estimular em cada enfermeiro
maior compreensão dos deveres que lhe impõe
e mais entusiasmo pelo seu ideal.
A enfermagem evoluirá e será no futuro o que
o exercício de seus profissionais fizerem dela; ontem
como hoje será grande, valorosa, respeitada, se a fizerem
grande, medíocre, se medíocres os forem, será
a exata dimensão do sonho e da determinação
de seus integrantes, até porque, do exemplo das lutas
pioneiras de seu desenvolvimento, nos foi legado não
apenas um sonho, mas a concretização dele, numa
demonstração de talento, dedicação
e fé, que reconhecemos e absorvemos de nossas mestras,
pretendendo na continuidade transmitir aos nossos pósteros.
Rememoramos Curitiba, a cidade em que nascemos, cenário
de nossos dias vividos; ruas arborizadas, paralelepípedos
nas mais centrais, pedra brita nas mais distais, fora do centro.
Poucos automóveis, bondes, jardineiras; cidade tranqüila,
pacata, provinciana.
Limitadas oportunidades de estudo e formação
para os jovens, pouquíssimas ofertas de cursos superiores,
principalmente para as jovens, para elas os estudos nas escolas
normais, seriam professoras e casariam... ou não. Dentre
os colégios particulares, em maior número que
os oficiais, destacava-se o Colégio Novo Ateneu, ali
na rua Emiliano Perneta, antiga Aquidaban, onde cursamos desde
a admissão ao Ginásio, ao Curso Clássico.
Era a Curitiba de 1951, cento e sessenta mil habitantes e
as oportunidades que se ofereciam à uma jovem, que
pertencia à classe média e que buscava horizontes
de formação profissional. Assim, dentre as perspectivas
apresentadas, iniciamos um curso de Visitadoras Sanitárias,
que era ministrado na Secretaria da Saúde Pública,
tenso a coordená-lo uma enfermeira que se diplomara
em São Paulo. Esta era WANDA HORTA, paranaense, natural
de Ponta Grossa, voltara ao seu Estado após término
do curso na Escola de Enfermagem da USP e que acabou por retomar
a essa cidade, onde realizou brilhante carreira acadêmica,
tornando-se conhecida nacionalmente na comunidade da Enfermagem
- foi a introdutora do Processo de Enfermagem, ou seja, a
sistematização dos procedimentos de enfermagem
cientificamente fundamentados. Mestra de reconhecido saber,
orgulho e respeito de toda a categoria profissional, foi ela
a nossa orientadora do caminho para a enfermagem, fornecendo-nos
nomes e endereços para contato com a EEUSP e para lá
seguimos em janeiro de 1952, retornando após término
do curso de enfermagem. Iniciamos nossas atividades profissionais
no Centro de Saúde da Capital (Barão do Rio
Branco com André de Barros), onde permanecemos poucos
meses, passando a prestar serviços na Escola de Auxiliares
de Enfermagem Dr. Caetano Munhoz da Rocha, criada
pela Lei Estadual nº 1945 de 18/10/54, a primeira escola
criada no Paraná após o advento da Lei nº
775/49 (que organizou o ensino da enfermagem no país);
dirigia esta escola a enfermeira MARIA LÊDA VIEIRA (atual
diretora do curso de Enfermagem / PUCPR), cedida por órgão
federal à Campanha Nacional Contra a Tuberculose, um
dos muitos programas do Ministério da Saúde,
que deslocava profissionais para os Estados, objetivando criar
e/ou organizar serviços das Secretarias Estaduais;
participavam do Corpo Docente ainda, as enfermeiras ALICE
MICHAUD, formada na EEUSP e GERDA MITT, formada na Escola
Ana Nery, de ressaltar
ainda, presença de outras enfermeiras nos próprios
serviços da Secretaria da Saúde, no Hospital
Médico-Cirúrgico do Portão (hoje Hospital
dos Trabalhadores), no Serviço Especial de Saúde
Pública, enfim, inúmeras enfermeiras que para
cá vieram e muito contribuíram para o desenvolvimento
da enfermagem em nosso Estado.
A criação da Escola de Enfermagem "Madre
Leonie, em 1954, iniciativa da Congregação das
Irmãs de São José, foi outro marco histórico
considerável no desenvolvimento da enfermagem - a partir
da criação da Escola de Auxiliares de Enfermagem
Dr. Caetano Munhoz da Rocha e desta escola foi
marcante o crescimento da profissão, devendo ser acrescentado,
ainda, na década de 50, a criação da
escola de auxiliares de enfermagem Catarina Labouré,
iniciativa da Congregação das Irmãs de
Caridade, escola esta que, com o advento da Lei nº
4024/61 (Diretrizes e Bases da Educação Nacional
), transformou-se na primeira Escola Técnica de Enfermagem
a funcionar no país, trabalho daquela congregação
religiosa, onde a figura destacada de empreendedora foi a
irmã MARIA TURKIEWICZ. Outro fato marcante do desenvolvimento
da enfermagem profissional, foi o início do funcionamento
(1962), do Hospital de Clínicas da Universidade Federal
do Paraná.
Na realidade o que se observou e acompanhou no Brasil, quanto
ao desenvolvimento da enfermagem, no decorrer de sua história,
é que os Estados acompanharam a evolução
sócio-econômica e cultural do país. Enquanto
aportavam no Brasil as primeiras enfermeiras norte-americanas,
para organizar e dirigir a escola de enfermagem Ana Nery,
(Divisão de Organização Sanitária
do MS), brasileiras iam ao exterior em busca de formação.
Por evidente, a criação de escolas e cursos
exerceu papel preponderante. Todavia mister se faz registrar
a importância, pelo que representou de trabalho desde
a sua criação em 1926, da Associação
Brasileira de Enfermagem, Aben (recomenda-se consulta à
publicação Documentário, editada em 1976),
que a página 110 registra: "A Associação
Brasileira de Enfermagem - Seção Paraná,
foi criada em 18 de abril de 1956..., a primeira reunião
foi realizada em uma das salas da Escola de Enfermagem Madre
Leonie, com a presença de doze enfermeiras: ALICE MICHAUD,
ELZE VIEIRA DE SOUZA, TEREZINHA B. G. DE AZEREDO, GERDA MITT,
Irmã MARIA TURKIEWICZ, Irmã REGINA MAGRIN,
Irmã LUÍZA ODILA, Irmã MARIA DA GLÓRIA,
Irmã VERÔNICA TARTAS, Irmã MARIA MÔNICA,
MARIA LÊDA VIEIRA, JACY MARIA ARRUDA...", mais
adiante está registrado: "a Diretoria Provisória
foi formada por três membros: ALICE MICHAUD, presidente,
MARIA LÊDA VIEIRA, secretária e Irmã MARIA
TURKIE-WICZ, tesoureira".
Às muitas realizações da ABEN-PR, creditam-se
a expansão e o desenvolvimento histórico da
enfermagem paranaense, é exíguo nosso espaço
para citá-las e também porque outras enfermeiras
protagonizaram episódios dessa história, com
sua efetiva participação ou compartilhando-os
e por certo, deverão fazer seus depoimentos neste espaço
da Revista Coren+PR.
Com relação ao Conselho de Enfermagem, reportamo-nos
ao documentário Aben, já citado, página
254: "A idéia da criação de um conselho
de enfermagem parece ter se originado da necessidade sentida
pelas enfermeiras de que a profissão precisava ser
regulamentada; essa preocupação foi aumentando
à medida que as profissionais tomavam consciência
de que outros grupos de diferente ou nenhum preparo, também
desenvolviam atividades de enfermagem".
O primeiro anteprojeto para a criação do conselho
de enfermagem deu entrada na Divisão de Organização
Sanitária do Ministério da Educação
e Saúde em 24 de agosto de 1945, sob protocolo nº
56267/45. Registra o Documentário, página 277:
"Finalmente, a 12 de julho de 1973, foi sancionada a
lei nº 5905/73... Eram decorridos vinte e oito anos...
A Aben enviou ao Ministério do Trabalho e Previdência
Social lista tríplice com a indicação
de nove nomes para membros efetivos e nove para suplentes,
cada uma, para os cargos do Conselho Federal, "...somente
em março de 1975 foi publicada a Portaria do Ministério
do Trabalho, nº 3059, de 05/03/75, página 278.
O Paraná foi representado neste primeiro Conselho
Federal de Enfermagem, designado pela portaria ministerial
mencionada, por esta que relata estes fatos, acrescentando-se,
após a vigência do 1º mandato, limitado
em doze meses, e cumpridas todas as tarefas estabelecidas
na Lei nº 5905/73, em seu artigo 21, parágrafo
único e alíneas, continuou representado, após
eleição efetuada pela Assembléia dos
Delegados Regionais como estabelece o artigo 6º daquela
lei.
Ao fazer este relato cuidamos em preservar a verdade histórica
dos fatos nos quais fomos partícipes e participantes.
Muito há que ser relatado por outras companheiras de
trabalho e lutas pelo engrandecimento da enfermagem, muitas
delas, para nosso privilégio anda entre nós;
cada uma ajudou a determinar realizações e conquistas
a seu tempo, hora e local. A enfermagem, como dizíamos
no início, é o que são os seus profissionais,
sua história é um evoluir diuturno. Realizamos
um retrospecto, confiável mas não tanto, a memória
por vezes nos dirigentes do Coren-PR, que outras enfermeiras
complementem a história, temos certeza, tem muito a
contar de suas laboriosas e engrandecedoras participações,
pois cada uma delas ajudou a determinar a forma dos fatos,
que eles sejam contados, para conhecimento e inspiração
das gerações atuais de enfermeiros, para que
possam estes entender porque, ainda hoje e sempre, a tríade
da ciênciaarteideal, será a luz dos
caminhos da enfermagem.
|